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Helder
Moura Pereira
 
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Naquele tempo chamávamos maravilhosos
a certos momentos, não sei se hoje ainda
se diz assim, maravilhosos, mas era uma coisa
que metia um dia límpido, uma boa refeição
(com um bom vinho), amor de trepar
pelas paredes. Num desses momentos
maravilhosos, em que não sabíamos
onde íamos parar, quis negar a paixão
por ti, mas já não fui a tempo. Digamos
que fiquei agarrado, e agora, que tomo
uma espécie de metadona para o amor,
sinto saudades enormes da droga verdadeira.

Volta e meia metia-me num labirinto,
um centro comercial com uma árvore
ao meio, eu estava num subúrbio de Lisboa
como se estivesse numa capital da Europa.
As mãos, nuas, o coração, vazio, foi-se
a pequena magia do meu encontro
com a utopia, pois agora, enquanto ando,
de mãos pesadas ao longo do corpo,
entre bancos de jardim e lojas luminosas,
entre ruídos de fundo e ruídos de voz,
agora sei que era utopia querer
descrever o meu amor em tons suaves.

Quando folheias o jornal e eu digo
que são só páginas brancas, não vês
o comentário político, dizes que é melhor eu
marcar consulta para o oftalmologista.
Mas não vês, não percebes, não compreendes,
que não podes acreditar nas notícias
entregues gratuitamente nas estações
dos comboios, dos eléctricos, dos autocarros?

Os milhares de coisas que em ti detesto
houve tempos em que foram ninharias, as mãos
baloiçam com um saco de pão, ainda fingem
que sabem desenhar figuras dançarinas
no ar. E têm medo, todo o corpo tem medo,
os cabelos do braço ficam espetados
como se ao pé estivesse um cão feroz.
Saudades, deve ser isso, saudades
dos momentos ferozes, maravilhosos.

 
Se as Coisas não Fossem o Que São, Assírio & Alvim, 2010
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