<

C A N Ç Ã OO C O N T Í N U A

 

no vão da taça a noite cresce
da porcelana em que se turva
o fim do dia à forma curva
de cada fruto e fosforesce

a sua casca e assim se pega
à pel' dos pêssegos a luz
e em tangerinas e até nos
peros brilhantes escorrega,

ou põe nas uvas horizontes
como de pérolas secretas
e às bananas dá concretas
geometrias como pontes

entre uma ameixa e outra ameixa
vermelho-escuras e romãs
e bagas rubras e maçãs,
no peitoril que a noite fecha,

no lusco-fusco em que se gera
a natureza viva e morta
e cada fruto em si recorta
cone, cilindro, cubo, esfera,

simplificados no limite
que os seus volumes alucina
e com teus olhos se combina
por entre um lustro de grafite,

porque a seu lado és a figura
que numa mão pousa a cabeça
enquanto não se desvaneça
a tarde leve, lenta, escura,

em pradarias e paisagens
que então nos deixa imaginar
a água parda a murmurar
em cada ondinha outras imagens

ou outra cor do teu vestido,
ou outra pose pensativa,
enquanto a luz vai à deriva
nas suas buscas de sentido

e de sabor que traz a brisa
com a memória destes frutos
mais luminosos, mais enxutos,
em que a retina se hipnotiza,

quando o real é outro assim
e tem substâncias de estranheza
e transparências de tristeza
de mim a ti, de ti a mim,

e cria uma outra dimensão
do que se sente e vive e pensa,
a transtornar-nos a presença
na sombra vã do grande vão

>

Vasco Graça Moura
<
>
 
 

Relâmpago nº4

<
>