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VASCO GATO
POESIA
N.º 36/37
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Interrompeste o sono
para ver
no negro pano das imagens
a forma exacta
de uma alegria futura
certa incandescência
a alastrar
como folhas de chá
na água fervida
dos olhos
lá fora
a borracha dos pneus
vai suportando as horas
do abandono
as floreiras
vão tentando acender
lâmpadas vegetais
há muito fundidas
os semáforos
soberanos a contragosto
vão repartindo a impaciência
pelas ruas
e nisto tudo
há uma coincidência
de propósitos
o funcionamento
de um coração insuspeito
que palpita
desalinhadamente
na ânsia de um lugar
onde pousar
sim
porque não se trata
de correr para sempre
mas de investir
brutalmente
no lucro de chegar

 
 
Relâmpago n.º 36/37
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