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SANTA BÁRBARA
MARGARIDA FERRA
POESIA
NO Nº31/32
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Tantos homens como casas,
esta fica junto ao largo onde
contaste automóveis a meio do século passado.
Deixei de ter qualquer subsídio
quando saíste de cena,
ias gostar de saber que me deixei de atalhos.

Lembro-me de muitas inutilidades
a teu respeito como o facto
de teres lado a lado na secretária baixa
dois rádios sintonizados
em postos diferentes
para não procurares demasiado.
Liguei-te para o telefone preto quando
uma espiral me levou anos bons e cabelo,
quando fiquei descalça
sobre calcário escorregadio,
quando morreu o poeta no porto
e esse foi o título que lhe deu
uma revista cor-de-rosa.

Não há agora quem me explique o mundo
ou no colo de quem me desdobre.

Deixa-me usar o teu crédito
no táxi para casa,
moro hoje onde nasceste.
Não acredito na justiça poética,
em números em tabelas,
na inocência da Maria Luísa,
ou em boletins meteorológicos,
Visito-nos no alto de São João
semanalmente,
e nunca nos dias santos,
e nunca lá vou.

 
Relâmpago nº31/32
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