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J A R D I MO D A OC O R D O A R I A

 

Dia e noite os leões forneciam água!
Apossavam-se do nome do lugar,
deixando na sombra o topónimo ilustre.
Eu saía do eléctrico, atravessava a praça,
depois a Cordoaria
onde um Nobre sem corpo ouvia os patos
e à noite coisas que não teria sonhado
no tempo em que de inglesinhas alimentava
os seus poemas. "Era um jardim de má fama"
cantaria o Pedro. A alameda dos plátanos
era o recreio da escola. Ali jogávamos
a barra, a polícias e ladrôes ou
ao pilha-galinhas quando o guarda não
vigiava a proibição de pisar a relva.
A igreja, ao lado, olhava as Virtudes,
as altas grades de impedir suicídios
por desgostos de amor. E do outro lado
os ladrões espiavam de outras grades
a liberdade ajardinada onde brincávamos.
Uma janela se tornara célebre
por ter permitido o olhar de Camilo,
ter-lhe dado, na solidão, uma nesga de rio,
enquanto pelas tardes afiava a caneta
o varapau com que iria zurzir, determinado
e férulo, burgueses e "brasileiros".
Grandes navios sulcavam a corrente,
levando galerianos para as áfricas
e grandes malas de porão para os brasis
de futuros comendadores. Passavam automóveis,
nós corríamos, "apanhei-te", e de Camilo
não sabíamos nada, não constava
dos livros que perdíamos pelos bancos
onde hoje – meio século passado –
velhos reformados jogam a sueca. O jardim
tinha os seus encantos, a árvore da forca,
o vendedor de gelados, o caramileiro,
em cada nove de Abril o canhão disparava
na álea dos nossos jogos tiros de pólvora seca
para comemorar a «derrota» do CEP. Sempre
dominámos bem a teoria das vitórias morais.
Voltando a Camilo: um novo Amor de Perdição
daria hoje para comprar um automóvel, daria
para amigos cento e dez darem umas voltinhas?
A liberdade pode ser um motor, uma boa estrada
para S. Miguel de Ceide, um boné de postilhão
atrás do volante que nos afaste das grades
do cansaço, da rotina, da ideia da morte
que aflora os nossos passos ou embrulha
as insónias, desliza comprimidos no esófago.
Hoje, quando ali passo, os leões prosseguem
o seu rugido de água, divertem-se, quando há vento,
a borrifar os transeuntes. Mas são
os reis dos animais, possuem a única fonte
onde a água da cidade nunca seca. Como a inspiração
de Camilo, o seu olhar o jardim além das grades,
a sua memória fixada na relva, essa relva
que então não podia ser pisada e que agora
a estranha maquineta do jardineiro apara
para que melhor reverdeça. O seu ruído
leva-me a sentar num dos raros bancos
para brincar um pouco com o passado,
cerzir farrapos da longínquia memória
que me ficou na pele. Passo-os na retina
antes de seguir o meu caminho. Camilo fica
a olhar o Palácio da Justiça. Não saberei
se ele lhe acha alguma graça. A estátua
tem os olhos abertos, recolhida a balança.
Coisas muito suspeitas,
a acreditar na tradição.


O itálico reproduz um verso do Pedro Homem de Melo

Egito Gonçalves
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Relâmpago nº6
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