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Poesia e viagem
Eduardo Sterzi

 
 

MURILO MENDES,
AS VIAGENS E A HISTÓRIA

 

 

 

Murilo Mendes declarou, numa entrevista, que só em 1953, ao visitar a cidade espanhola de Toledo, descobriu o “sentido da História”.[1] Essa concepção museológica da história, que se atém às marcas do que aconteceu em detrimento das forças do que acontece, parece se confirmar nos livros posteriores àquela data, com sua crescente atenção às paisagens pontilhadas por vestígios do passado, sejam ruínas ou obras de arte. Os poemas de Siciliana foram escritos em 1954 e 1955; os de Tempo espanhol, entre 1955 e 1958; os de Convergência, entre 1963 e 1968. No entanto, mesmo um entusiasta da história como museu teria dificuldades em sustentar, no confronto com os textos de Murilo, essa confissão de um tardio despertar para a história. De fato, Contemplação de Ouro Preto foi produzido em 1949 e 1950; só o consideraríamos menos “histórico” do que Siciliana ou Tempo espanhol, mesmo compreendendo a história arqueologicamente, se acreditássemos que as ruínas européias são mais “históricas” do que as brasileiras... Porém, essa seria uma discussão sem proveito, uma vez que a premissa de que ela parte é falsa. Murilo, em Toledo – e antes em Ouro Preto –, não descobriu verdadeiramente o sentido da história, mas talvez, isto sim, o reconheceu, como alguém que subitamente se dá conta de que o passageiro sentado ao seu lado, no ônibus ou no avião, é um velho amigo de infância, cujos traços mudaram bastante e, de certo modo, sob o peso da idade e de muito sofrimento, se petrificaram numa efígie pálida: o rosto mutável de outros anos, a cada dia diferente, só conhece agora a frangibilidade das rugas. Na cidade “histórica” de Minas Gerais, na Sicília, na Espanha, Murilo encontrou a sedimentação de um processo que, desde o início de seu percurso poético, pudera observar no Rio de Janeiro em pleno andamento e com uma tal intensidade que imprimiu sua marca em cada verso dos livros anteriores, de Poemas a Parábola.

Pensando em versos de outro poeta sobre Ouro Preto, Alvaro Lins escreveu: “Nas paisagens históricas – será preciso procurar a vida nos lugares que já morreram; ou que estão morrendo. Uma vida dentro da morte: eis a poesia da história”.[2] O argumento calha à perfeição se pensarmos em Contemplação de Ouro Preto, Tempo espanhol e Siciliana. Porém, nos livros anteriores, o que procurava o poeta? Talvez a morte dentro da vida. Fugindo, entretanto, ao esquematismo de tais afirmações, podemos dizer, lembrando Ferenczi, que é na “oscilação perpétua” entre vida e morte[3] que a história faz suas aparições na poesia de Murilo. E devemos notar que, ao figurar as “paisagens históricas” (assim denominadas segundo a noção museológica), o poeta jamais consegue se desembaraçar de uma maneira de ver forjada em plena modernidade e inalienável de suas tensões.

Sintomaticamente, a primeira palavra do primeiro poema de Contemplação de Ouro Preto já reitera o topos da fantasmagoria:

Assombrações que sobem do barroco,
Das ladeiras e dos crucifixos esquálidos,
Frias portadas de pedra, anjos torcidos,
Passantes conduzindo aos ombros o passado,
Cemitérios aéreos de adros largos
Onde noturnos seresteiros cantam,
Seguindo-se de violas e violões,
Aos defuntos colados nas gavetas
[4]

Não apenas as figuras do passado são espectrais. Mesmo os seresteiros no cemitério, personagens do presente, são vistos como fantasmas. Os próprios significantes parecem assombrados: perseguem-nos as sombras de outros significantes, como se pode reparar na coincidência etimológica e fônica entre “passantes”, os cidadãos de Ouro Preto à época em que Murilo esteve lá, e “passado”, assim como em toda a intrincada orquestração de aliterações, assonâncias e paronomásias do poema.

Em diferentes pontos do livro, Murilo retorna à retórica da fantasmagoria:

Lanternas e lampiões, velas, tochas suspensas
Subitamente imprimem às casas e às pessoas
Visagens de outro tempo, ares de assombração.
[5]

A visão de Ouro Preto com que Murilo brinda os leitores é escandalosamente moderna. A catástrofe passeia pelo calçamento de pedra, à procura de novas ruínas:

Ouro Preto se inclina com elegância,
Ouro Preto se inclina, e um dia cairá.
Nova técnica transfigura a terra,
Mas os futuros engenheiros e arquitetos
Não mudarão o corpo de Ouro Preto
Que ainda se preserva da reforma
Por sua mesma pobreza e solidão.
Ouro Preto para o futuro um dia se voltara,
Gerando no seu bojo a nova tradição...
Acelerando a história, a vida deslocou.
Mas a lenda combate aqui a história:
Seus espectros e igrejas permanecem
Pelo ciúme da morte resguardados.
[6]

Uma queda no passado talvez tenha aparelhado a cidade para enfrentar (ou desviar de) uma queda muito mais terrível no futuro: esta é a didática da derrocada em Murilo. Ele encontra em Ouro Preto, e depois na Europa, uma paisagem preservada da “técnica” e da “reforma”, mas percebe que tal preservação, ao menos no caso brasileiro, não é voluntária: deve-se à “pobreza e solidão” da cidade que ousou, segundo a versão idealizada do episódio da Inconfidência Mineira, acelerar a história – e, sendo assim, a queda tornou-se modelar. É a própria “morte”, invejosa da vida da “lenda”, história cristalizada e espectralizada, que protege a cidade da morte definitiva. O Rio de Janeiro, na visão de Murilo, não teve a mesma sorte.

Elizabeth Bishop, que morou em Ouro Preto na década de 60, conta uma história curiosa, permeada por um quê de alegoria, numa crônica intitulada “Ida ao botequim”:

A cerca de um quilômetro e meio da cidade, subindo a serra por uma estrada de terra íngreme, chega-se a uma chapada alta. No caminho, passa-se por duas capelas ao longe, Nossa Senhora do Bom Parto e Sant’Ana. Sobe-se o morro Queimado, passando-se por campos escarpados cheios de ruínas. Após duzentos anos, algumas das ruínas voltaram a ser casas: uma bem pequenina, só quatro paredes restantes, com aberturas para uma porta e uma janela, agora tem um telhado de encerado, mantido no lugar por pedras. É difícil entender como alguém pode morar ali, mas há algumas galinhas ciscando por perto da porta e roupas secando nos arbustos mais próximos.[7]

Murilo Mendes, tivesse contemplado tal espetáculo de ruínas superpostas, homens arruinados revitalizando (o verbo soa indesculpavelmente irônico) as ruínas, talvez resumisse seu assombro com a constatação de que as flores de Ouro Preto não são “flores da vida fecunda”, mas “cravos-de-defunto”. Contudo, embora pajeando a morte, tais flores ainda desabotoam:

Eu vi a cidade árida,
Estéril, sem ouro, esquálida;
Eu vi a cidade nobre
Na sua pátina fosca,
Desfolhando lá das grimpas
No seu regaço de pedra
Buquês de flores extintas.
[8]

Com efeito, em “Contemplação de Alphonsus”, Murilo identifica a “morte sublimada” como aquela apta a converter- -se em matéria de poesia – morte que traz consigo a esperança, os “prenúncios”, em oposição à morte “selvagem e descarada”, a “morte entregue a domicílio”.[9] (É difícil discernir com certeza qual, entre as duas versões da morte, é a morte de bolso, a morte-talismã, a morte-novidade-para-os-modernos de que o poeta falava outrora, e essa dificuldade, indício de ambivalência, é bem muriliana.) No mesmo poema, ele pede às “figuras supremas do universo” que devolvam aos poetas o “alumbramento” e a “assombração”.[10] Mesmo o futuro será representado como fantasmagoria:

Sei do passado?
Nasci de Adão,
Da noite espessa
Na obumbração.
Sei do presente?
Vejo meu irmão
Vagar sem rumo,
Vagar sem lume,
Roendo o vento
Na cerração.
Sei do futuro?
... Assombração...
[11]

Assim Murilo vincula as pretensões utópicas, a esperança de prever o futuro e acelerar a história, a uma poesia capaz de traduzir a presente “espantação de viver”[12]. E o passado, mineralizado nas ruínas e nos prédios “históricos”, testemunhas do transcorrido e do sonhado, história e lenda, só existe, para ele, à medida que se emaranha com o tempo vivo, revelando-se sob a forma espectral de aparição.

Com vidência, Giuseppe Ungaretti, um dos maiores poetas italianos do século XX e tradutor de Murilo Mendes,[13] no prefácio que redigiu para a edição italiana de Siciliana, livro subsequente a Contemplação de Ouro Preto, recorreu a termos inequívocos da fenomenologia do sublime moderno, anotando que essa poesia realiza-se em “imagens instantâneas” resultantes de “uma profunda experiência e um choque profundo”.[14] Murilo teria talhado a cicatriz da diferença na vultosa tradição de testemunhos sobre a Sicília. Essa tradição, conforme lembra Ungaretti, remonta aos gregos e desenvolveu-se segundo as ideias destes sobre a relação entre cultura e natureza, as quais resultaram na prepotência da razão (“um jogo de números”) em querer dominar a totalidade da vida, esculpindo harmonia onde antes verdejava o acaso. Murilo teria se beneficiado de um olhar instruído na tão diversa paisagem brasileira – paisagem de um mundo novo cujas formas voluptuosas, em contraste com o espírito europeu, teriam sugerido o Barroco. Tal olhar lhe permitiu ignorar o cansaço que supostamente perturbara a visão europeia e descobrir em si “aquela hora antiga da história humana em que intelecto, sentimento e sentidos encontraram seu puro, objetivo equilíbrio”.[15] O seu, porém, não pode ser um olhar verdadeiramente inocente, como fora o dos gregos que criaram, em solo siciliano, o mito de Polifemo, para dar conta da percepção, no contato com a natureza agreste, de “uma violência que jamais conseguirá dominar a graça”.[16] O olhar que Murilo lança sobre a Sicília é turvado pela mesma angústia que dilacera os seus contemporâneos.

Não deve, portanto, ser surpreendente que uma rigorosa ambivalência domine tais poemas. Por isso, às vezes, a paisagem sugere um solipsismo oposto à barbárie do mundo moderno:

Porque severo e nu, desdenhas o supérfluo,
Porque o vento e os pássaros intocados te escolhem,
Sustentas a solidão, manténs o espaço
Que o homem bárbaro constrange.
Em torno de tuas colunas
O azul do céu livre gravita.
[17]

Outras vezes, todavia, a própria apreensão da Sicília como um sítio mítico e atemporal recobra sua historicidade, como se pode verificar exemplarmente na “Elegia de Taormina”:

Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da bomba,
Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.
[18]

“Armados pela história, pelo século”: o poeta veste a couraça do sublime e segue vigilante. Mas talvez o desconsolo final – “Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina” é uma ressalva devastadora – mire algo situado além da história, além do século, além do sublime.

 

 

 

NOTAS

1. “Adquiriu mesmo, lá, a revelação de um sentido que não tinha até então – o sentido da História (foi em 1953, em Toledo – cidade onde se cruzam três grandes civilizações).” Renard Perez, “Murilo Mendes”, in Escritores brasileiros contemporâneos: 2.ª série, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964, p. 248.

2. Alvaro Lins, Literatura e vida literária: diário e confissões, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963, p. 113.

3. Sándor Ferenczi, Thalassa: ensaio sobre a teoria da genitalidade, trad. Álvaro Cabral, São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 119.

4. “Motivos de Ouro Preto”, in Contemplação de Ouro Preto, hoje em Poesia completa e prosa, org. Luciana Stegagno Picchio, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 457. Todos os demais textos de Murilo Mendes aqui referidos serão citados a partir desta edição.

5. “Procissão do enterro em Ouro Preto”, in Contemplação de Ouro Preto, p. 472.

6. “Motivos de Ouro Preto”, in Contemplação de Ouro Preto, p. 459.

7. Elizabeth Bishop, “Ida ao botequim”, in Esforços do afeto e outras histórias, trad. Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 102-103.

8. “Flores de Ouro Preto”, in Contemplação de Ouro Preto, p. 471.

9. “Contemplação de Alphonsus”, in Contemplação de Ouro Preto, p. 499.

10. Id., p. 500.

11. “Luminárias de Ouro Preto”, in Contemplação de Ouro Preto, p. 503.

12. Murilo Mendes, Espaço espanhol, p. 1183.

13. O livro Finestra del caos, publicado em Paris no ano de 1949, com a versão de Ungaretti para “Janela do caos” e outros poemas de Murilo Mendes e ilustrado com litografias de Francis Picabia, foi fundamental para que Murilo conquistasse o reconhecimento no ambiente cultural italiano. A edição talvez esteja na origem do Prêmio Internacional de Poesia Etna-Taormina que o poeta recebeu em 1972.
A importância deste prêmio pode ser avaliada a partir da recordação daqueles que o haviam conquistado anteriormente: o próprio Ungaretti e, entre outros, Dylan Thomas, Jorge Guillén e Salvatore Quasimodo. Sobre Finestra del caos, cf. Nelson Ascher, “Vida e obra continuam sem atenção no Brasil”, Folha de S. Paulo, suplemento Mais!, 14 mar. 1993, p. 6.

14. Giuseppe Ungaretti, “Siciliana de Murilo Mendes”, in Razões de uma poesia e outros ensaios, org. Lucia Wataghin, trad. Liliana Laganá, Lucia Wataghin e Maria Betânia Amoroso, São Paulo: EDUSP e Imaginário, 1994, p. 229.

15. Id., p. 229.

16. Id., p. 228.

17. “O templo de Segesta”, in Siciliana, pp. 565-566.

18. “Elegia de Taormina”, in Siciliana, p. 569.

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