Luís Quintais
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Índex
Da memória e do tempo
ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
SÉRGIO NAZAR DAVID
TERCETOS QUEIMADOS
7 LETRAS, 2014

A poesia brasileira mais recente – a que se tem vindo a publicar desde meados dos anos 90 até à actualidade – oferece-nos um quadro alargado e complexo de propostas de linguagem. Trata-se de um conjunto extremamente diversificado de vozes, o qual não deve ser interpretado a reboque de quaisquer diferendos ou lógicas de grupo. Sejam esses grupos os continuadores ou herdeiros de uma poesia marginal, ou devedores de uma linhagem mais preocupada em dotar o poema de um maior poder metafórico, não é produtivo pensarmos a poesia de determinado autor segundo uma óptica de conflito. Mais fecundo será enquadrar esse autor na comunidade interliterária a que pertence e com a qual pode ter, em maior ou menor grau, afinidades várias. No caso de Sérgio Nazar David, esse enquadramento parece-me necessário.

Se recuarmos até à geração mimeógrafo, a que engloba as experiências de Waly Salomão, Chacal, Torquato Neto, Paulo Leminski ou Sérgio Sampaio, e a qual se convencionou designar por «poesia marginal», e percorrermos o diapasão lírico que se estende até à geração de poetas revelados já nos anos 90 e que conta nas suas fileiras com obras tão heteróclitas quanto as de Carlito Azevedo (1961), Arnaldo Antunes (1960), Heitor Ferraz (1964) ou Ricardo Aleixo (1964), para citar alguns autores da mesma geração de Sérgio Nazar David (nascido em 1964), o que se verifica é que essa geração a que Nazar pertence fez um caminho de rasura do índice metafórico constante na linguagem poética, ainda que com excepções. Preferindo, como padrão, o elíptico e o literal, o dizer de forma clara, directa e dura e sem grandes cedências a ornamentos gráficos ou efeitos visuais, a realidade de um tempo que se vive segundo o ritmo urbano e a consciência de que toda a obra de arte é produto de mercado, os poetas contemporâneos brasileiros não têm escapado a esse «ethos da globalização», para lembrar palavras de Heloísa Buarque de Holanda em prefácio à edição de 1998 da colectânea Esses Poetas – uma antologia dos anos 90 (Aeroplano, Rio de Janeiro, p. 10).

Ora, tendo em conta que Sérgio Nazar David, como poeta e ensaísta, tem vindo a desenvolver e a publicar o seu trabalho desde a primeira década deste século (poesia de sua autoria saiu, na 7Letras, em 2001, Onze Moedas de Chumbo e, em 2006, A Primeira Pedra, com a mesma chancela) e não comparece, por essa razão, em três paradigmáticas reuniões de poetas brasileiros publicadas entre 1998 e 2002 – para além da antologia já referida, relembremos 26 Poetas Hoje (Aeroplano, 2001), volume também organizado por Heloísa Buarque de Holanda e a reunião na virada do século – poesia de invenção no Brasil, com organização de Claudio Daniel e Frederico Barbosa (Landy Editores, SP, 2002) – importa perceber que o lugar que a sua poesia ocupa no contexto literário do Brasil parece aproximar-se de uma outra linhagem, menos centrada naquele dizer rude e literal a que nos reportamos. Essa linhagem pode abarcar poetas como Antonio Cicero, Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Britto, Armando Freitas Filho ou mesmo Luis Maffei, para os quais o poema é filho da língua e a língua portuguesa um constante objecto sobre o qual se fala e sobre o qual o próprio poema pensa. O seu tom procura, por isso, um rigor expressivo ao abrigo de um princípio simples e que o próprio enuncia: «O verso é o barco e o mar por que se rema».

Tercetos Queimados (7Letras, Rio de Janeiro, 2014) comprova essa obediência ao verso e suas leis subtis, determinadas por uma consciência verbal. Mereceu lançamento em Portugal e, o que não é de somenos, contém alguns poemas que tinham já vindo a lume em revistas portuguesas e brasileiras, sinal de que a poética de Nazar, ainda que discreta, é requisitada. Nas notas que encerram este volume poderá o leitor verificar em que órgãos especializados saíram alguns desses textos. Mas é de destacar, porque simbolicamente representativo de uma certa recepção crítica da sua escrita, a presença do autor em revistas como Poesia Sempre e Pequena Morte (onde Nazar viu impresso os poemas «Bosque» e «Sonho», em 2008), Navegações, de Porto Alegre, onde o poema «David» saiu no número 2 de 2010, e ainda o acolhimento de outras composições do autor, editadas quer no blogue do Centro Nacional de Cultura (o poema «Tigre»), quer ainda na revista Colóquio/Letras, em cujo n.º 183, de Maio/Agosto de 2013, podemos ler «Máquina de Escrever». Na Relâmpago (no n.º 33, de 2013) foram publicados os poemas «O som», «Um suspiro», «A língua», «Respiração», «Pedra» e «Patri mortuo», o que dá bem provas de que Sérgio Nazar cada vez mais se afirma como voz a ter em conta no actual panorama poético da língua portuguesa.

Por outro lado, e para que se compreenda de que modo essa recepção se concretiza, tenhamos presente que, no paratexto deste livro, a nota crítica de Ana Marques Gastão funciona como legitimação desse efeito de leitura que Nazar vai recebendo dos dois lados do Atlântico. Segundo Ana Marques Gastão, o autor «regressa com um novo fulgor oficinal», ancorando a sua poética numa «acesa contenção» e rechaçando «o discurso estético pomposo»1. Convertendo o seu prosaísmo em discurso onde um eu se coloca em cena, o que se constrói é um modo de dizer de um sujeito que não esconde que lembrar o passado é saber que fazer poesia implica ficcionar um rosto. O sujeito que enuncia aqui a vida (uma interpretação da vida, ou uma imitação dela), não vem, de facto, dizer verdades absolutas sobre a poesia, a existência ou o amor, posto que a linguagem é enredo e o enredo é, no texto poético, um enredar de palavras por meio das quais o que se diz é da ordem do veridictivo não uma verdade consumada. Com marcas de primeira pessoa, o «eu» vem, primeiro que tudo, auscultar a sua época, a sua interioridade, pondo em jogo, problematizando, o mundo que o circunda, mas pondo-se a si mesmo em jogo, reflectindo sobre o seu tempo interior. Reforçado por uma «despersonalização dramática», através da qual memória e tempo se tornam eixos temáticos que dinamizam o discurso, dir-se-ia que é entre a atenção ao mínimo desse mundo íntimo e o efeito de despersonalização que se constrói uma espécie de movimento dialéctico do sentido que estes textos perseguem. Como se o «eu» fosse, por meio da palavra, enredado em tempos e espaços, afectos e sonhos que, a todo o instante, como que pulverizam a escrita, estes tercetos estão, a todo o momento, profetizando o seu próprio fim, ardendo ou inscrevendo a própria experiência do poema na lei heraclitiana do tempo, pois somos «Matéria crua: lodo, magma, sonho / areia da tarde, fruta intacta. / Somos a seda que envolve artérias, // ossos, o peão que roda / no charco. Nada mais vão que / compararmo-nos ao rio de Heráclito» (p. 41).

Livro dividido em quatro secções, ou andamentos, Tercetos Queimados é o mergulho nas profundezas de um outro «David» (seja o rei, seja um outro sujeito, que pode ou não reenviar ao apelido homónimo do autor empírico), assim figurando uma individualidade que, interpretando a história, se interpreta. Na primeira secção, os poemas são, sobretudo, «artes poéticas». O discurso metaliterário é explicitamente mostrado e demonstrado: «Quando um som fica no ar (onde / já não estamos) ele existe. / O som sozinho não é o mesmo de // quando em sua mudez o vazio / ergue muros, vácuos, hiatos, / intermitências, a que chamamos // silêncio […]» (p. 9) e desde logo põe em cena o fazer do texto como trabalho dependente da estrutura do significante, não do significado. Meschonnic pode ser-nos útil neste contexto: o poema é, primacialmente, o jogo de sons, por meio de cuja melopeia e fonopeia, um ritmo edifica a textualidade2. Por isso, na apresentação de sua arte verbal, Nazar não hesita em falar do som, unidade mínima de sentido, a qual perdura nos hiatos de que o tempo se vai tecendo. Essa primeira secção é, aliás, engendrada de modo curioso: amiúde fala uma primeira pessoa (a que exercita sons, a que os ouve e sobre esses sons rememora cenas?), em cuja voz (passada a escrita) esse tempo pretérito se agudiza de forma lancinante, mas sempre sem exclamações. A primeira pessoa, dotada da voz dramática, é quem pode falar melhor de experiências que a metáfora e seus regimes alargam: «Vivi numa estação sem chuva e sem estio. / Os vendavais mais puros sabiam-me / no corpo a distantes acontecimentos: / eram noites de gigantes que a um menino / não convinham. Eu era impuro mesmo quando, / meio bêbado, meio santo, guardava // o pouco que tinha numa noz secreta e úmida.» (p. 11), vendo-se por vezes como actor de uma peça, a vida. Fábula, narração, metáfora, sonho e convocação dos seus fantasmas, o sujeito do texto não ilude, antes alude e faz do labor sobre a figura da alusão uma forma outra de contar o passado insepulto: «Meu pai faria hoje 80 anos. / Conversamos a noite toda. / Não me deixou dormir // falando dos planos que faço / [...] // Os pais mudam depois de mortos / O meu / já não faz aniversário.» (p. 13). O texto transforma quem escreve e transforma aqueles sobre quem o poeta escreve. Essa primeira secção, na verdade, propende, nos cinco poemas de que se constitui, à concepção da poesia como lápide, inscrição (e descrição) dos mortos. Se toda a poesia é epitáfio, Sérgio Nazar David concebe nesta parte do livro, o livro de poesia como mausoléu, edifício dedicado a figuras grandiosas (os seus fantasmas, os seus mortos) e que, aliás, o terceto como forma poemática de algum modo consagra.

A segunda secção de Tercetos Queimados, mais reservada ao que é da ordem da vivência amorosa, persiste em continuar sendo meditação sobre o tempo e a memória, mas implicando o «eu» no próprio fio do que se conta, anulando o distanciamento próprio do efeito dramático. Não é de outros que os textos vêm falar, é do próprio «eu» imerso na sua subjectividade. É dentro de certas palavras (a palavra «amor», sobretudo) que esse sujeito entende melhor a passagem do tempo e seus ensinamentos: na maturidade, quando já se diz «meu amor», é já possível que a ressonância e o peso das palavras ultrapasse a simples enunciação, ganhando mais densidade. O tempo participa do entendimento do amor e vice-versa: «Chega o tempo em que já se diz meu amor / não porque um homem tenha / se deitado mais cedo do que os outros antes // [...] // mas porque à noite um sonho / fez-nos livres como nunca fomos, / e já sem alvo, preceito ou objecto, amamos / a ranhura que fica no canto, // um resto de memória que se quebra, / o segredo que viola o instante, / rubor de faces e crateras.» (p. 29).

No itinerário interior que percorre, na convocação que faz de situações vividas, mas transfiguradas num discurso sincopado, atento e vigilante (pontos finais, encavalgamentos que tornam a sintaxe não exactamente contorcionada, mas sujeita a subtis subversões), a voz poética que aqui vem à página, não deixa de recordar também Lisboa. Quatro poemas são explícitos na referência à cidade de Ulisses: «De Lisboa», «Geometria», «Armas e corações» e «Último Desejo». Alude-se a Lisboa, personificada, destinatária dos textos, confidente ou ouvinte do poeta («Vês que passo dias em vão quebrando pactos?»), mas é à língua portuguesa, no seu próprio lugar de origem, que o sujeito se dirige: «Vês a minha mão (embora quente ainda o corpo) / buscando o compasso da língua que destilas?» (p.31). Lisboa é sinédoque e metonímia de um país que nos surge ominoso, com cores nebulosas e que, camonianamente, reenvia ao motivo da alba, tempo do desencontro entre os amantes numa «fria e leda madrugada», que Nazar cruza no seu discurso. São poemas, os desta secção, que perseguem o entendimento da paisagem lisboeta («Lisboa é um cacto dentro d’água / turvo, bruto, secreto. As lajes são / formas esmagadas de mentes e mãos»), espaço anquilosado e habitado por um mal que o poeta interpreta em dias explosivos: «Mordem-se em Lisboa povo e governo. / Já ninguém atira versos às janelas / [...] // Ó sábados de chuva / e de remorso que cruzamos / sentimentais e justos. Hoje vejo / quão distantes todo o tempo / estivemos do que somos» (p. 35).

Tercetos Queimados, na arquitectura que projecta, convida-nos, por fim, a ler, nas terceira e quartas secções, o modo como o tempo e a memória, mais do que problemas, são obsessões de um sujeito auto-questionante. O poema como reflexão sobre aquele ethos da globalização, é o lugar onde se pensa a presença de Deus num mundo onde as leis de David se cumprem (ou não se cumprem, de todo) por ínvios caminhos. Tempo e memória inscrevem-se num mais vasto campo de referências de ordem biográfica (autobiográfica), mas não há nunca a propensão para fazer da rememoração um acto meramente elegíaco ou celebratório de figuras de um passado que pertence à ordem da história pessoal de quem escreve e surge já carregado de uma dimensão mítica. Por isso não há exclamação, mas uma lúcida perplexidade. Lembrando episódios, falando até de lugares concretos (o Líbano, o Natal de 1930, a avó Sophia e o pai ou a irmã), aludindo a factos marcantes que não se podem subtrair (ou trair) no processo de construção do texto, Nazar acaba por tecer um discurso que se aproxima da fábula, isto é, do que já está cristalizado no regime do «era uma vez» e admite a idealização ou versões sobre a verdade contada pelo eu dos textos. Essa narração, essa efabulação que suporta o ficcional é extraordinariamente conseguida em «Tranças» (p. 63), poema onde podemos ler e ver (outra característica desta poesia, o visualismo das imagens) o olhar mnemónico de quem escreve fazendo do poema a tela de um filme que frente aos nossos olhos decorre: «Quando os sopros da casa fizeram-se fatais – / minhas tias marulhavam nos olhos os ventos / do moinho de arroz – vovó trancou-se no quarto. / Não mais teria filhos (tivera quinze). Esperavam / o meu avô Elias retornar do Líbano semanas depois. // Nos cinco anos de ausência do marido, chegaram / cartas pedindo notícias e dinheiro; chegaram cartas / narrando diligências inúteis por heranças que fora / receber no Cairo e em Chartum [...] // [...] até que numa / vovô quis voltar e pediu que mandassem a passagem / aérea. [...] // [...] Durante / aquele tempo, vovó Sophia só saiu de casa para ir à missa. / Com a mesma tesoura que lhe dera ano sim ano não dez / rapazes cortou rente à nuca as duas tranças de sacerdotisa.»

A quarta e última parte destes Tercetos retoma, de modo mais explícito preocupações de natureza propriamente poética e que tinham ficado como que em aberto na secção inicial. «Cesário», em óbvia referência a Cesário Verde, é o momento em que o «eu», entregue a uma «vida fácil», exige «um pouco mais de veneno», chegando mesmo a querer sentir «o travo / dos sulfatos nas artérias entre as cordas da poesia» (p. 73). É justamente essa demanda de um travo novo, saído (por meio de que operações da linguagem?) do som que as cordas do discurso fazem vibrar, que Sérgio Nazar David pretende atingir, ou degustar. Em «A Língua», ou em «Ars Poetica» fica definido o programa nazariano: «O poema geométrico há de ser um mapa / sem dor» (p. 79), posto que a poesis «Massa abstacta erguida sobre arames», é arte do tempo e da memória e não tem de ser feita de forma literal para se afirmar enquanto poesia digna da sua época. Até porque, bem vistas as coisas, Nazar não recusa jamais a «face espessa, turva e inconsútil do corpo» (p. 79), o poema.




NOTAS

1. Ana Marques Gastão assina a nota crítica de Tercetos Queimados, inserta na badana deste
volume.

2. Vide, MESCHONNIC, Henri. La Rime et la Vie, Folio, Paris, 2006, p. 290.

 
Relâmpago n.º 35, Outubro de 2014
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