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O trigésimo quinto número da Relâmpago procura reflectir sobre a relação entre poesia e viagem. De que forma é que a viagem funciona como um dos tropos maiores de uma concepção do poético que vai de Homero a Rimbaud, e de Camões a Luís Miguel Nava, só para usar alguns nomes que vêm reforçando o encontro – imaginário, real – entre poesia e viagem?

«Poesia em viagem», para usar o célebre título de Blaise Cendrars em versão portuguesa de Liberto Cruz1, seria uma boa forma de atribuir também um título a este número, não fosse a convicção do director em exercício de que toda a poesia está permanentemente em viagem, isto é, num devir ou num deslocamento inacabado que nos permite dizer que a viagem é um dispositivo de radicalização da experiência (do novo que há na experiência) destruindo sábia, agilmente o território da história e da normatividade, recusando o cânone, aderindo a uma certa ideia de inovação e confronto que jamais se compadece com a tradição, com o acontecido e com a sua memorialização.

Num mundo onde já não há espaço, onde já só há tempo, como se todos os lugares emblematizassem apenas a esterilidade e a domiciliação, a poesia é a afirmação ainda de uma possibilidade de descoberta e de redenção que parece furtar-se a tudo o que sabemos, a tudo o que consentimos. Essa heterotopia não se esclarece senão em movimento, em agilidade, em rapidez. Uma rapidez que ilumina súbita, violentamente, para se apagar em seguida, de forma, também ela, súbita, violenta.
Num tempo que parece prisioneiro do património e do turismo, isto é, dos despojos mercantilizados e apropriados da história, a poesia, sendo viagem, é surpresa cognitiva, deslocamento fértil, incisão na temível melancolia que se abate sobre todos os objectos e recessos presumidamente conquistados.

A viagem é, para lá do regime vastíssimo de semelhanças e contiguidades semânticas que promove, sinal de uma leveza, a mesma que Italo Calvino, reflectindo sobre Guido Cavalcanti, entendeu como um dos predicados de um milénio próximo. O poeta que ousa saltar sobre túmulos epitomiza o improvável, repartindo as linhas de fuga. Diz-nos Calvino: «Se quisesse escolher um símbolo votivo para entrar no novo milénio, escolheria este: o ágil salto repentino do poeta-filósofo que se eleva sobre o peso do mundo, demonstrando que a sua gravidade contém o segredo da leveza, enquanto a que muitos julgam ser a vitalidade dos tempos, ruidosa, agressiva, devastadora e tonitruante, pertence ao reino da morte, como um cemitério de automóveis ferrugentos.»2 O poeta desdobra a folha aparentemente gasta da história, reforça o insuspeito e o impensado, faz o múltiplo, uma e outra vez, recusa a morbidez do fim, e diz-nos, como Manuel António Pina, para termos calma, afinal não se trata nem de princípios nem de fins, mas de declinações um pouco tardias, fora de tempo, é certo, mas mobilizadoras, criativas, em viagem.

À secção de ensaio sobre o tema a que nos dispomos, seguem-se as já habituais secções de poesia e recensões.


LUÍS QUINTAIS





Notas

1. Blaise Cendrars, Poesia em viagem, Lisboa, Assírio & Alvim (introdução, tradução e coordenação de Liberto Cruz), s/d.
2. Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milénio, Lisboa, Teorema, 1998 (1990), p. 26.

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