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Poesia e morte
Luís Filipe Parrado

 
 

HÁ EM TUDO ISTO UMA GRANDE RAZÃO

 

1. Na sua perspectiva,
que relações podem
estabelecer-se entre
a poesia e a morte?

 

Pouco à vontade com o assunto em questão, limito-me a sugerir a leitura dos poetas suicidas* seguintes, certamente muito melhor habilitados do que eu para fornecerem elementos de resposta às relações tensas e equívocas entre a poesia e a morte: Thomas Chatterton (1752-1770), envenenamento com arsénico. Karoline Günderode (1780-1806), apunhalamento no coração. Heinrich von Kleist (1777-1811), cano de pistola dentro da boca e disparo. Thomas Lovell Beddoes (1803-1849), envenenamento em Basileia. Antero de Quental (1842-1891), dois tiros sobre si mesmo. José Asunción Silva (1865-1896), uma bala no coração. Ángel Ganivet (1865-1898), afogamento no porto de Riga. Wolf von Kalckreuth (1887-1906), têmpora rebentada por uma bala. Periclís Yanópulos (1870-1910), um tiro de revólver. Peiu Yávorov (1878-1914), veneno e tiro na cabeça. Georg Trakl (1887-1914), overdose de cocaína. Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), envenenamento com estricnina. Sergei Esenin (1895-1925), enforcamento num quarto do Hotel Inglaterra, em Leninegrado. Francisco López Merino (1904-1928), disparo na fronte. Costas Cariotakis (1896-1928), um tiro no coração. Jacques Rigaut (1899-1929), outro tiro no coração. Vladimir Maiakovski (1893-1930), mais um tiro no coração. José Antonio Ramos Sucre (1890-1930), overdose de barbitúricos. Florbela Espanca (1895-1930), overdose de veronal. Vachel Lindsay (1879-1931), envenenamento com químicos domésticos. Hart Crane (1899-1932), afogamento nas águas do Atlântico. Sara Teasdale (1884-1933), overdose de barbitúricos. René Crevel (1900-1935), intoxicação com gás. Attila József (1905-1937), esmagamento por um comboio. Leopoldo Lugones (1874-1938), envenenamento com cicuta. Alfonsina Storni (1892-1938), afogamento no Atlântico. Antonia Pozzi (1912-1938), overdose de comprimidos. Marina Tsvietaieva (1892-1941), enforcamento na aldeia de Elábuga. Cesare Pavese (1908-1950), intoxicação com soporíferos. Tor Jonsson (1916-1951), enforcamento em Oslo. Carlos Obregón (1929-1963), overdose de barbitúricos. Sylvia Plath (1932-1963), a cabeça dentro do forno e intoxicação com gás. Paul Celan (1920-1970), afogamento no Sena; John Berryman (1914-1972), afogamento no Mississipi. Gabriel Ferrater (1922-1972), barbitúricos e um saco de plástico atado à volta da cabeça. Alejandra Pizarnik (1939-1972), overdose de barbitúricos. Jon Mirande (1925-1972), mais uma overdose de barbitúricos. Jaime Torres Bodet (1902-1974), disparo sobre si próprio. Anne Sexton (1928-1974), inalação de gases do escape do seu carro. Jens Bjorneboe (1920-1976), enforcamento. Luis Hernández (1941-1977), atropelamento pelo metro. Justo Alejo (1936-1979), esmagamento no solo, depois de se atirar do quarto piso de um edifício governamental. Alexis Traianós (1944-1980) inalação de gases do seu automóvel. Beppe Salvia (1954-1985), mergulho no vazio a partir da janela da sua casa, em Roma...

Há em tudo isto uma grande razão.



2. Considera que o tema
da morte tem desempenhado
um papel relevante na sua poesia?



Sim. O que quer dizer que em poesia, na minha ou na dos outros, só a vida (a sua representação e reinvenção) verdadeiramente me interessa.



* Fonte: Antología de poetas suicidas (1770-1985), seleção, coordenação e notas de José Luis Gallero, Árdora Ediciones, Madrid, 2005.

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