<

Poesia e morte
Diogo Vaz Pinto

 
 

IT'S ALWAYS ABOUT DYING, NEVER ABOUT DEATH*

 

A poesia é a morte toda de que sou capaz.

Como um acto de disposição resoluto e, até um certo ponto, justo ou definitivo.

Não quero compreender melhor esse problema que um dia poderá pôr-se diante de mim numa evidência avassaladora, nesse sentido da vertigem de quem se perde, de quem ensaia desesperadamente um adeus e se vê a fazer contas dolorosas num balanço entre o terror e a anestesia. Mas, por um outro lado, enquanto solução, agrada-me a ideia da vida como hipótese de “escolher a tempo a nossa morte e amá-la”. (É sempre espantoso reassinalar um verso cuja cintilância se percebe que resistirá ao tempo, a voz de um poeta majestoso como se sente sempre que há poucos. Como o António José Forte. Mas a verdade é que não, e o mistério é esse. Há muitos e grandes poetas. A dívida é monstruosa. Deixemo-nos, pois, de lamúrias que é de todas a menos poética das atitudes.)

Depois a morte lembra-se dos que viveram. Não tenho muitas mortes para contar, felizmente. A minha será, talvez, de uns poucos. Prefiro mesmo uma coisa discreta, sem alarde ou cerimónia. Como no gesto corrido de pedir a conta, pagar e sair. Um gesto tantas vezes feito, uma última vez, sem mesmo saber que é para não mais repetir.

A morte-dramalhona, assim, feito insistência, essa que serve a uma poesia mais hipocondríaca que propriamente metafísica, parece-me uma acrobacia tonta. É um despropósito e um sinal de um género de orgulho destrambelhado e patético. Tenho menos paciência do que já tive para as delambidas tristezas que só se arrastam, com inclinações tão desnecessárias. Mas já se sabe, “justamente quando já não eram precisos, apareceram os poetas” – assim mesmo, no sentido cansativo do que aparece em doses plurais – “à procura e a querer multiplicar tudo por dez; má raça que eles têm, ou muito inteligentes ou muito estúpidos [...]: abrem o mapa, dói aqui, dói acolá...” É uma outra forma de alertar, como recentemente Herberto insistiu, que cuidemos para que a nossa dor não se torne académica.

A poesia, como vício, também se mata demais. Depois há este perigo de os citar demasiado, aos poetas, até à náusea. Como se se os quisesse neutralizar no ronron daquilo a que todos fazem festas, contentinhos, assentindo. A morte, certamente, chega às vezes cedo e é uma chatice. Mas também me parece que goza de excessiva má fama. Não sei se andam cá tantos assim tão interessados nisto que possam vir a dar por ela. Nem de mim sei; julgo que tenho dias. E, nalguns desses, escrevo.

Que relações podem estabelecer-se entre a poesia e a morte?
Manter a morte em perspectiva parece-me sempre um sinal de lucidez, mas mais que isso é algo de incitante. Neste sentido a grande razão que sinto que por aqui tantas vezes falta é, menos o falar da morte, e mais o desposá-la, trancar com ela até ao arrepio. E também, por hipótese, levá-la aos outros. Um cheirinho só às vezes; outras um pouco mais.

É claro: não sei o que digo, tenho ademais todo o interesse em ser dado como inimputável. Tenho dado comigo a recitar muito, mas baixinho, só para mim, este poema do Frederick Seidel com o qual esbarrei há uns dias:

ROBESPIERRE: Who wouldn’t like to have the power to kill/ Friends and enemies at will and fill/ The jails with people you don’t know or know/ Only slightly from meeting them a year ago,/ Maybe at an AA meeting, where they don’t even use last names./ Hi, I’m Fred. Instead of being someone who constantly blames/ And complains, why not annihilate?/ Why not hate? Why not exterminate? Why not violate/ Their rights and their bodies? Tell/ The truth. Who wouldn’t like to? There’s a wishing well in hell/ Where every wish is granted./ Decapitation gets decanted./ Suppose you have the chance/ To guillotine the executioner after having guillotined everyone else in France?

De resto, estou um pouco cansado de um excesso de validação que serve a todos e a maioria reclama. A natureza é um assombro, e está-se bem cagando. O problema é a medida humana, que nunca se satisfaz. Ser humano é sempre um pouco pulha. Antes nada chegava ao ponto de ser insaciável; um traço muito nosso realmente constrangedor e inexplicável.

Mas, como dizia, acho importante respeitar um pouco as coisas antes de nos pormos a sagrá-las a torto e a direito. A vida humana é sagrada? Só se com muitas excepções. E a melhor medida para a poesia, como traço exclusivamente humano e que se contrapõe radicalmente à insaciabilidade, é a possibilidade de valorizar uma perspectiva única que se vai fazendo da vida, como algo que se sacia, se goza, e que, ao concretizar-se na apreensão de uma grande beleza, chega a desejar a morte. Até à próxima vez. Ou uma pequena morte, pelo menos.

Mas isto é uma hipótese. Bom é um tipo seguir pensando nas coisas, sobretudo se estimuladas por esse grau de loucura que é o extremo bom senso da visão poética, estabelecendo uma cadeia de nexos infinita e exultante. Viver maravilhadamente até na dor. Nada académica. Dor que realmente nos desanca o espírito até dar uma comichão a Deus. E, com sorte, sair debaixo dela: um tipo erguer-se mil vezes, já ensinado a cair. Como a senhora disse que era missão da poesia ensinar.

Sem um certo abalo poético a Morte nem mesmo me parece que se venha medir à luz do nosso espírito. Há a dos outros, claro, vai havendo cada vez mais. Mas a morte como perspectiva que se aceita, que mais do que isso acaba por se escolher e amar, tem que vir de um grau muito particular de lucidez. Só vão a tempo dessa escolha os espíritos mais afinados, aqueles que se deixaram tocar e, em troca, vibraram alguma coisa.

Eu ainda me acho jovem, e, quem sabe por isso, armo-me com ela um pouco ao pingarelho. É virem mais uns 30 e logo vemos. Se calhar, então só me mijo. Mas sim, por agora, vejo bem que lhe vou falando e falo dela, enquanto ainda posso, pelas costas. Um dia talvez me cale muito calado. Quando penso nesse dia não vejo grande espaço para a poesia. Parece que afinal me contradigo. É natural.

* Frank O'Hara

topo
<