Luís Quintais
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Índex
Solo para um tempo
de chumbo
JOSÉ MANUEL DE VASCONCELOS
ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
ANIMAIS FERIDOS
DOM QUIXOTE, 2016

Esta oitava colectânea de poemas de António Carlos Cortez surpreende pela inusitada descrença radical e pelo sopro apocalíptico com que desilude qualquer leitura que espere o embalo aprendido em lirismos complacentes ou em ironias prêt-à-porter. A opacidade de um tempo vivido, que põe ao largo qualquer esperança, atravessa este livro como uma ferida que o corpo transportasse e que se proclama em palavras que ardem sem rendição. O catastrofismo não é uma característica corrente na poesia. Apesar de tudo, há conhecidos exemplos na viragem do século XIX para o século XX, e já neste último, sobretudo no período entre as duas guerras mundiais e logo depois do final da última. Os grandes conflitos bélicos, sobretudo os mais devastadores, e os grandes cataclismos foram sempre ocasião e motivo para agitar visões tenebrosas e furores escatológicos, mas entre nós raramente se foi além dos queixumes que ainda deixam lugar a alguma esperança. Veja-se a poesia do período que decorreu entre o final dos anos 20 e 1974; apesar de reflectir, em muitos casos e de maneiras várias, o cinzento arrastado do tempo colectivo, não se pode falar em descrença total, em visões aniquiladas e sem expectativas, já que na maioria dos casos se contrapunha à dor, ao sofrimento e à baixeza das vidas, o que podia ir do conforto religioso (nos vários poetas, sobretudo católicos, que publicaram durante essas décadas), à crença num futuro liberto, justo e radioso (a poesia neo-realista e a que lhe está próxima), passando pelo apoio que o onirismo, os mananciais do inconsciente e a proclamação da liberdade do desejo podiam trazer à vida como portas para mundos revigorantes (o surrealismo). Particularmente representativo desse perdurar da confiança no futuro, foi a poesia que surgiu logo após o final da segunda guerra, e que, embora dando testemunho dos anos difíceis, não deixava de acreditar nos tempos vindouros como um horizonte de regeneração. É o caso de Adolfo Casais Monteiro que, em Europa, escrevia: «Ó morta civilização!/ Teu sangue podre, nunca mais!/ Cadáver hirto, ressequido,/ à cova, à cova!// Teu canto novo, esse sim!/ Purificado,/ teu nome, Europa,/ o mal que foste, redimido,/ o bem que deste,/ repartido!» Mesmo Tomaz Kim, poeta em cujas obras encontramos com persistência o tema apocalíptico, com ressonâncias dos chamados «war poets» e de T.S. Eliot, exortava: «Que alguém/ faça tremer as montanhas/ e ruir as cidades/ e uma outra vida surgir!...»

Mas estamos ainda muito longe dos grandes exemplos universais de poetas que, pela ligação intrínseca entre os percursos pessoais da existência e as vicissitudes do tempo em que viveram, nos deixaram obras que são testemunhos desse sentimento de insegurança e desamparo que anda associado aos períodos de declínio e de degradação (o Ovidio de Tristia, Dante, talvez o maior de todos, até pela influência em toda a poesia universal, a Achmátova de Requiem, Paul Celan e Czesław Miłosz, sobretudo na fase inicial, a de Poema sobre o Tempo Congelado). É certo que, recentemente, alguns poetas portugueses têm problematizado poeticamente as contradições do nosso desagregado tempo, as suas flagrantes injustiças, desvarios e temores (casos de Hélia Correia, em A Terceira Miséria e Luís Filipe Castro Mendes, em A Misericórdia dos Mercados); é verdade que um poeta como Luís Quintais tem revelado na sua obra mais recente um desapontamento fundo pelo presente, mais entranhado do que é costume, mas o livro Animais feridos vai, parece-me, muito mais longe na visão desencantada, no desajustamento às vezes pré-niilista que transmite na sua flagrante singularidade, por prolongar até ao paroxismo o mal estar de que dão conta algumas obras da poesia portuguesa contemporânea. Embora urdindo uma veemente teia poética sobre o tempo que vivemos, o ser social e as repercussões respectivas na consciência individual, não estamos aqui, evidentemente, perante qualquer forma de poesia civil, no sentido que levou certos poetas a expressarem-se em intervenções mais directas e circunstanciais. Trata-se efectivamente de uma poesia atenta a vicissitudes sociais que provocam marcas profundas, que se expressa através de um imaginário às vezes próximo da alegoria, em que desfilam imagens de devastação, de caos, de perdição e fúria, que se inserem numa vasta tradição cultural de que um dos primeiros e principais exemplos é A Divina Comédia, seguida de toda uma literatura a que poderíamos chamar «infernal», mas suscitando também em quem lê, a memória de outros domínios artísticos, como a pintura, a fotografia e o cinema, em que o sombrio, a destruição e a desagregação são as marcas de universos de sombra e fogo.

Nesta última recolha, António Carlos Cortez trabalha alguns temas que já encontramos no livro anterior, O Nome Negro, nomeadamente a relação do poeta (da poesia) com o seu tempo, o tempo histórico e colectivo como condição das vivências pessoais, do sentimento da duração, do sentir subjectivo e, também a reflexão sobre a linguagem poética. Em alguns poemas de O Nome Negro e, sobretudo, em Animais feridos, o tempo suporta-se como «uma ferida sempre aberta», e a intenção de pensar poeticamente o mundo, escrevendo-o na dispersão do que nos é dado ver, e no reencontro com as nossas mais íntimas obsessões, parece logo resultar da epígrafe que Cortez escolheu para o primeiro daqueles livros, os versos de Ruy Belo «É bom estarmos atentos ao rodar do tempo […]/ e vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos/ dispersos em bocados, vítimas do vento/ ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos […]»

O tempo de Animais feridos é um tempo urbano, «um tempo raso e duro», já sem surpresas, resultando de uma repetição funesta que apenas traz ao corpo, à vida, movimentos induzidos (o autor, num poema de O Nome Negro, usa mesmo a palavra electrochoque, sublinhando a violência que do exterior se abate sobre o individual) e que a linguagem poética quer interrogar. A poesia é sempre estratégia de resistência e fuga, estratégia que neste livro assenta numa linguagem alusiva, criadora de um espaço labiríntico. O dizer elíptico parece ser uma constante da expressão poética do autor, que já no livro anterior falava do «[…] que se diz entre o dizer/ ao dizer que de tão literal/ impede que o texto tenha/ a sua lei interior/ a sua chama/ o seu cristal» e interrogava metapoeticamente: «Que dirás por detrás/ do que queres realmente dizer?», mas isso não impede nele uma certa vivacidade vocabular, organizando-se o poema entre uma exigência de contenção e um apelo de ritmo e musicalidade que se ficará a dever talvez a um certo culto do soneto, resultante da confessada admiração do autor por poetas como Camilo Pessanha, Cesário Verde e David Mourão-Ferreira. O certo é que estes poemas, embora reflectindo uma visão própria e dorida de mundos próximos, procuram sempre consagrar a palavra como matéria única da poesia, favorecendo a criação em detrimento de uma simples recepção especular, nunca resvalando para simplificações imediatistas. Os poemas afiguram-se à leitura como os animais feridos de que fala o título, e remetem para o desfasamento, para o sentimento de deslocação e estranheza que acompanha o ciclorama da vida, deixando-nos a braços com o cinzento e pesado pressentimento apocalíptico. São sugeridos cenários de guerra, mas de uma guerra cujos beligerantes não têm rosto, nem nação, um conflito permanente que é metáfora da condição do nosso tempo violento e repercutido, rasgado em sobressaltos, pulsando num quotidiano desumano, em que a «vida é afinal soma de perdas». As imagens são imagens de uma catástrofe que nos escapa nas suas causas e em que o genocídio ganha contornos de habitação, sempre com mandantes invisíveis ou de identidade desfocada, como «fantasmas vagos». Fala-se de «avenidas esventradas», de napalm, de círculos do inferno, caçadas, carnificinas, corpos descarnados («A poesia escorre carne», escreve-se num verso próximo do imaginário de Luís Miguel Nava), cidades em chamas, «o vazio informe», um mundo habitado por mortos vivos, a lembrar os «Hollow Men» de T.S. Eliot, poeta que, a mais de um título, podemos convocar para melhor entender os reflexos intertextuais de alguns poemas do livro. Mas, muito mais do que do autor de The Waste Land, creio que é de Dante, como já disse, que devemos falar (não esquecendo, aliás, as fortes ligações da poesia e do pensamento poético de Eliot com ele), por encontrarmos aqui ecos vários e vagos dessa «saison en enfer» que é o livro inicial da Commedia, para além das alusões a um mundo que se vai a pouco e pouco destruindo, destruindo-nos. A estrutura tripartida do livro poderá reforçar a aproximação à obra do grande florentino: de «Oblivion» que, mais do que do esquecimento, fala da impossibilidade de esquecer, até «Estige», como símbolo da passagem, do «rio humano» da vida e das experiências por vezes traumatizantes das relações com os outros, particularmente quando assumem formas amorosas, passando por «Palimpsesto», isto é, a vibração da memória, a rasura que não apaga, que não esconde o passado, e de que a poesia é exemplo sempre vivo, feita também ela de «destroços de palavras» e «ruínas calcinadas». A lamentação dos erros, converte-se em poesia, forma eterna do grito, da ferida que não sara: «E então as mãos/ escreveram como quem/ atirando pedras grita». A poesia é assim ferida à nascença, e a linguagem atravessa-se na vida como um veneno, sem o qual não podemos passar. O poeta é o homem fechado em si mesmo, traçando um perímetro em seu redor, um reduto feito de palavras, e com isso se defende da opacidade do mundo, com isso gere a sua descrença, habitando uma «área ardida» em que os fantasmas de todos assumem a carne e o osso de cada um. O excerto de Mário Quintana, que o autor escolheu como uma das epígrafes deste livro, dá o tom justo, mostrando do poema a sua natureza, ao mesmo tempo insubstituível e agónica: «Triste./ Solitário./ Único/ Ferido de mortal beleza.», características que se opõem ao «tempo tétrico», ao «tempo célere», que é o nosso, esse presente fugidio como uma doença no olhar. O olhar tem, de resto, uma importância central neste livro, pelo papel testemunhal, mesmo inaugural, que desempenha, bem patente em poemas como o que se intitula precisamente «Apocalipse», e que evoca poetas como Cesário Verde e Gomes Leal, pela dimensão deambulatória e impressiva, e sobretudo Baudelaire, pelo descritivismo descrente e pelo sarcasmo de certos versos, como neste, em que um dos símbolos centrais da poesia oitocentista se transforma numa realidade tóxica: «A lua gélida num céu de cianeto/ iluminava a nova multidão cocainómana». De resto, e por falar em Baudelaire, o tom catastrófico deste livro, não afasta, uma velada mordacidade, como a que leva o poeta a intitular «Ecos de Paris» um poema em que se evoca o risco, a morte, o inferno asfixiante da Paris de hoje, para que o contraste com a cidade lúbrica, rosada e folle do tempo queirosiano, se faça sentir. Se há nesta poesia um elemento preponderante, ele é sem dúvida o fogo, o fogo como raiz cega e poder destruidor, metáfora do amor enquanto purificação e beleza, mas também devastação e guerra, ressonância do princípio heraclitiano que subjaz a Polemos, mas igualmente imagem do tempo que já não há e do tempo que ainda não há, bem como da própria escrita, na sua ardência e na luta de contrários que nela se agita: o poema era já em O Nome Negro visto como «desenho de fogo», no que poderá ser uma ressonância de António Ramos Rosa.

Na última parte do livro, surge-nos o Estige, que mais uma vez aproxima estes poemas das paisagens dantescas, sobretudo do Canto VIII da Commedia, no qual os Poetas (Dante e Virgílio) encontram os coléricos e irados, condenados pela altercação e a disputa. Talvez por isso, e por toda a sua carga mítica, o rio tem uma aparência de certo modo familiar: «é um trilho conhecido/ sabemos os seus indícios/ o seu fogo oculto e claro/ que julgávamos menos rápido/ Já o temos neste corpo/ marcado a ferro e brasa/ é só ir a esse encontro/ (o estige é água lassa)». Nesta secção final de Animais feridos surge-nos uma poesia mais confessional, em que a tonalidade elegíaca, como expressão do sentimento da irreversibilidade do tempo, acompanha, aqui e ali, o toque avassalador da angústia de uma separação, com o que isso implica de ferida e de cicatriz. Recorrendo ao simbolismo do rio do Hades, associado à ninfa do mesmo nome (Στυξ), ninfa cujos contornos nele se dispersam, e que aqui é, precisamente pelo forçado afastamento, um dos motivos da lamentação, o poeta retoma um dos seus temas recorrentes – as passagens a que o tempo nos compele – que se manifesta em alguns dos seus poemas e que aparece logo no título do seu primeiro livro, Ritos de Passagem. Em «Estige» há uma vaga trégua no ambiente de desolação global que constitui a respiração da maioria dos poemas das duas anteriores partes, e um retorno a si, às pequenas lutas do sentir («resta-nos apagar atrás de nós/ a dor e tecer as tréguas da guerra.» Vislumbra-se nesta secção «o lado secreto do coração/ lugar obtuso estreito e singular», a evocação de alguns episódios biográficos (o mar, o sul, as férias, instantâneos da infância há muito perdida), bem como as vicissitudes e desilusões do amor, patentes, por exemplo, em poemas como «A duas vozes» ou «Calçada do Tojal». Neste livro, com efeito, da mesma forma que não se sai do inferno e, portanto, não se atinge qualquer purgatório, também não se chega a reencontrar Beatrice. O poeta viator, «eterno caminhante insatisfeito» está sozinho e continua sozinho nos traçados da sua escrita: «Perdi-me nas leis do verso/ (a vida o reverso/ da vida?/ limito-me a ouvir/ o corpo batendo nas rochas/ torso ardendo ao sol/ ondas vocálicas/ de uma língua aplainada/ em areais onde os pés/ pisam destroços/ memórias corpos espectrais». Há neste «mapa sem ninguém», por entre os escombros exteriores e interiores, uma inconformada busca do olhar do amor, que se confunde com as imagens da devastação em que as águas colectivas inundam toda e qualquer esperança de regeneração, bem reveladora de que o Homem e a Poesia ocidentais se têm construído contra o mundo. O ser individual regressa aos locais da noite, numa travessia onde pontificam estigmas de destruição (droga, cinismo, discotecas, sexo de risco, «a roleta russa de infectados corpos»), os lugares conspurcados da noite lisboeta, e o Estige arrasta nas suas águas o amor, também ele irremediavelmente ferido por uma incontida acidez que uma ética da simplicidade, que busca a suave lisura de um mundo que se imagina e deseja, parece pôr a nu, perseguindo uma transparência perdida, esse «pretérito imperfeito» que se guarda na memória como uma relíquia. A realidade insatisfaz, a pureza contaminada implodiu; muito se perdeu «por entre os dedos» do esquecer e do lembrar, mas, apesar de tudo, procura-se consolação, mesmo sabendo que ela será impossível num horizonte temporal próximo. No final, o poeta serve-se de figuras emblemáticas de uma paixão destrutiva, daquele fogo que consumindo-se tudo leva consigo. Com os poemas intitulados «Oblivion» fecha-se um círculo, isto é, retomam-se as vozes íntimas, sente-se na garganta «a pastilha da tristeza». Neste círculo não se entra nem se sai, antes ele nos cerca e nos envolve como um eco distante, cuja origem e fim continuamos a desconhecer. Nas grandes catástrofes há sempre uma voz solitária que perdura. Ao concluirmos a leitura deste livro, podemos dizer com Eliot: «This is the way the world ends/ Not with a bang but a whimper.»

Relâmpago n.º 38, Abril de 2016
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