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O estado da poesia
Miguel-Manso

 
 

UMA POESIA SEM ESTADO

 

Reúno precário conhecimento para oferecer-vos um depoimento razoável sobre o estado da poesia. Se estas palavras servirem ainda assim algum propósito será o de darem notícia de um afortunado, quase completo alheamento meu sobre o assunto. Porque (ainda?) não li um conjunto importante de poetas, contemporâneos e não contemporâneos, porque não me dedico – a não ser de um modo fortuito – à leitura de crítica ou ensaio literários ou demais arrazoados dos agentes especializados; contribuindo isto para um desfasamento que prejudica acima de tudo quem espera do autor do meu trabalho uma vocação exegética ou minimamente expositiva.

Escrevo sem saber. Leio tudo o que me possa servir, sendo que apenas uma parte do que me serve chega através da leitura. E nutro uma desconfiança funda por aqueles que consideram a literatura – e a arte em geral – como tecto do que quer que seja. É, não poucas vezes, e do meu ponto de vista, palco para o desempenho de eloquentes neuropatias; reconhecendo ao mesmo tempo que sem elas (e o sofrimento dos que a interpretam) nada de muito atraente poderia ter sido criado nos territórios já desvendados do belo. A consciência que tenho disto que digo e a prática daquilo que faço colocam-me na petulante posição dos que não se comprometem, ao mesmo tempo que o que escrevo e publico me responsabiliza e inclui.

Não deverei falar, pois, de poesia (da poesia que me acontece) sem falar das redondezas. E as redondezas são tanta vez o tanto que não cabe (por não se ver) na poesia que escrevo; tão-pouco convém a depoimentos. Nem falarei melhor da poesia que vou lendo. Há sempre um texto debaixo do texto, como há sempre um rio abajo rio. E o depoimento verdadeiro não pode ser lido nestas palavras (com esses olhos), apenas intuído por quem não desejar saber realmente o que penso de Saint-John Perse, Luiza Neto Jorge ou do Abade de Bassus.

Mas não vejam nisto má vontade, nem boa. Apenas a declaração de que não consigo entender o trabalho poético segundo um delineamento historicista, cultural, visível ou narrável. Não possuo ferramentas para o observar & descrever de modo coerente, conexo. Nem acredito que seja possível fazê-lo, embora possamos dedicar-nos positivamente ao estudo e ao bosquejo sobre tão intransitável lodaçal. E parece-me que as melhores manobras de aproximação são também elas livres e poéticas, como que desdizendo-se, numa ladainha encantatória, amiúde fragmentária, que alude e elucida antepondo sombras e lampejos àquilo que, por ser alado, não pode tornar falado.

Pelo estado da poesia não me interesso. Sobre leitores de poesia não preciso de esclarecimento. A propósito de edição, recepção, pressupostos, tendências, recensões, assembleias, bandos de bardos, suas simpatias, aversões: bocejo. Ou, pelo menos, tem-me aborrecido muito olhar para isso, participar disso. E reconheço, com recorrente surpresa, que é muitas vezes a soma do que aqui enumerei que dá o falso panorama e permite concluir-se sobre o estado da poesia, fazer planos para o passado.

Ou para o futuro, que é mesma ilusão. Sobre uma poesia do presente («eternamente temporária») estender-se-ia o depoimento que não quero nem posso escrever. Uma poesia sem estado ou um golpe de estado no alegado estar da poesia. Porquê dar tanta importância a algo que – o mais das vezes – não está? Nem no «objecto» nem no «observador».

Em resumo: mais que maldizer, interrogo-me sobre a empreitada. E humildosamente sugiro que azoemos antes por caminhos mais definitivamente impossíveis (deixando estes que já estão percorridos) de modo a abranger aquilo que não pode: a estância do momentâneo; que é disso que falamos quando não falamos de poesia: duração, impermanência.

Pronunciando-me, enfim, sobre a poesia portuguesa não me ocorre nada mais que citar Groucho Marx: I do not care to belong to a club that accepts people like me as members.

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