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O estado da poesia
Fernando J.B. Martinho

 
 

O ESTADO DA POESIA: ACHEGAS PARA A COMPREEENSÃO
DE ALGUMA POESIA PORTUGUESA MAIS RECENTE

 

Para compreendermos a poesia portuguesa de mais recente revelação, temos de recuar, pelo menos, aos primeiros anos do novo milénio. Por esses anos, é organizada a antologia Poetas sem qualidades (2002), e vêm a público o n.º 12 da Relâmpago dedicado à “Nova poesia portuguesa” (2003), o número inaugural da revista Telhados de Vidro (Novembro de 2003) e a 3.ª edição, revista e aumentada da antologia Anos 90 e agora (2004). Ainda na primeira década deste milénio se situa o começo da publicação da revista Criatura (2008).

Os poetas deste período continuam, de um modo geral, uma tendência que já se observava no último quartel de Novecentos, a de uma evidente dispersão estilística, de um pluralismo que põe em destaque o que na sua escrita há de radical «aventura subjectiva» e «solitária», para recorrermos aos termos de Henri Meschonnic (cf. Les états de la poétique, 1985). Ideias como as de grupo, geração, movimento têm, em regra, a sua rejeição. Um dos poetas que foram incluídos no número acima citado da Relâmpago, José Mário Silva, no texto que antecede os seus poemas, deixou escritas as seguintes palavras: «Se há um facto mais ou menos consensual, em relação aos autores que começaram a publicar poesia no final da década passada (ou no princípio desta, como foi o meu caso), é a consciência de que não formamos uma «geração» ou um «movimento». Não somos modernistas, nem presencistas, nem neo-realistas, nem surrealistas. E também não regressámos, em grupo, ao «real» ou a outra coisa qualquer. Do lugar onde estou, vejo apenas uma galáxia dispersa, ainda a ganhar forma.» À «militância», à «paixão de infinito» dos movimentos, preferem eles, poderíamos dizer nós com Richard Rorty, as campanhas, acções mais limitadas, que terminam por um êxito ou por um fracasso (cf. “Movimientos y campañas”, Revista de Occidente, Janeiro de 1998). A impureza de uma campanha é qualquer coisa que pode aceitar-se sem dramatismos porque ela não é, ainda segundo o filósofo americano, senão o que se espera de «algo tão limitado e mortal» como nós próprios, afinal, somos. O carácter contingente das campanhas, e que transparece claramente em títulos como os das revistas Telhados de vidro e Criatura, estaria, de resto, em sintonia com o que seria a rejeição das «verdades transcendentes» que o modernismo perseguia, em favor de «verdades provisórias, socialmente constituídas», a que alude Hans Bertens num ensaio de 1997, “The debate on postmodernism”. Como os autores de uma obra sobre os segredos dos licornes (cf. Michel Pastoreau et Élisabeth Delahaye, Les secrets de la licorne, 2013), poderiam eles dizer que «os nossos saberes de hoje não são verdades, mas apenas etapas na história dos saberes». Numa breve nota não assinada a abrir o número inicial de Telhados de vidro, escreve-se: «[…] não temos um canal, uma razão suficiente ou sequer um prazo de validade. […] A poesia, que não nos interessa rigorosamente nada, move-nos de vez em quando. Temos de nos distrair da morte e não sabemos muito bem como. Talvez assim.» Num curto texto igualmente não assinado, a abrir o número 5 de Criatura, oito anos depois, incita-se, por sua vez, à escrita como «a única forma directa de agredir o vazio», e como o lugar onde «possivelmente» se encontra «a única medida real para a vida». O poeta que é co-director de Telhados de vidro, Manuel de Freitas, na nota que antecedia a sua colaboração poética no número 12 da Relâmpago, de 2003, virava provocatoriamente do avesso a famosa proclamação de Novalis que costuma ilustrar a ideia de literatura absoluta, da poesia como «o autêntico real absoluto»: «a poesia não é, para mim, o autêntico real absoluto. Será, quando muito, o ameaçado real possível. Quanto mais doloroso, mais verdadeiro.»

Os poetas que importa reter, nestes últimos anos, comprovam bem o acerto das palavras de Carlos de Oliveira num texto de 1969: «[…] os escritores que contam são aqueles que acrescentam ou opõem alguma coisa ao que já existe, ou o exprimem de maneira diferente […]». A bem dizer, sempre assim foi, mesmo quando a ideia de continuidade prevaleceu sobre a de descontinuidade. E, no caso dos poetas revelados nas duas últimas décadas, a sua diferença não significa, nos seus melhores exemplos, qualquer quebra relativamente à riqueza da poesia do século passado. Dois ou três dentre eles integrarão, sem sombra de dúvida, uma antologia exigente que se faça da poesia de Novecentos e dos anos transcorridos do século XXI. Quanto ao futuro, sujeitar-se-ão, como tantos dos seus antecessores, ao crivo hiper-restritivo de que fala Pessoa no seu Heróstrato.

O tempo destes poetas é um tempo de ressaca ou de ressacas. Dão eles expressão de diferentes modos, a um evidente mal-estar. Um deles, co-director de Criatura, David Teles Pereira, falará, numa sua «parábola», a esse respeito de «acidez»: «A poesia é como as ovas de ouriço-do-mar/ sabe melhor com um pouco de acidez». A ironia é um dos seus mais recorrentes recursos. E a derrisão incomodada com qualquer sobrevivência de obsoletas grandiloquências, de apelos à Musa, não o é menos, como se pode ver num poema de José Miguel Silva: «Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste/ falar de impermeabilização dos solos na cidade/ de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?/ Pensas que estás no século XIX?» Mais do que tudo, a própria poesia é por eles posta em causa, pelo menos, com a aura que séculos de auto-celebração lhe puseram em cima. Leia-se, do mesmo José Miguel Silva, “Um poeta”, incluído no número 12 desta revista: «Poeta?/ Não. Apenas um enorme desejo de cegar./ Em suma, fui um triste, um céptico, um homem/ estacado na fronteira entre verdade e pânico;/ muito rente aos afectos e desconfiado,/ sempre, da ideia de cintilação.» Cepticismo, desconfiança são coisas que não faltam a estes poetas. Ao desejo de sobrevivência, de glória póstuma que alimentou tanta gente mesmo já em eras tidas como de suspeita, respondem eles com uma proclamação rasa e desencantada: «E nenhuma voz sobrevive.» É Manuel de Freitas quem o diz. E o seu olhar crítico não se furta mesmo ao sarcasmo virado contra presenças instaladas na instituição literária com os seus rituais mercantilistas (cf. “Inventário plebeu”, in Resumo: a poesia em 2012). Em alguns dos textos incluídos neste último volume, o poeta assume, ao mesmo tempo, que tudo, vivências, experiências, termina num poema, a cuja feitura acabamos por assistir, como se ele quisesse pôr a nu o que leva à sua realização: «Já pressentia, no entanto, que aquele corredor/ de fantasmas incitaria a um poema/ em que ficasse bastante claro que nenhum deles/ precisou de recorrer a malabarismos para fumar/ – ou de descer assim tão alto […]/ para garantir/ a estes versos o teor de nicotina necessário.»

O sentimento de perda toca mesmo os que têm uma crença a escorá-los. E é o caso de José Tolentino Mendonça num «salmo» de um seu título recente, Estação central: «Sobre a terra desolada,/ peço-te/ prepara o caminho onde me vou perder». O poeta oscila, neste livro de poderoso desnudamento, entre a teologia negativa de um Bonhoeffer e a aceitação de um incompreensível silêncio de Deus: «Creio em Deus, mesmo quando se cala». As dificuldades do diálogo com Deus, também as experimenta Ana Marques Gastão num livro que, ademais, nasce do pranto sobre a morte da Mãe: «Diz-me, ó Deus,/ se só há mortos/ em minha língua.». De fora deste quadro de crença torturada, mas não menos abalado por angustiado sentimento de perda, vem o lamento de Maria do Rosário Pedreira, poeta que se enquadra igualmente na tradição elegíaca: «tantas mortes na minha vida». Nos últimos anos, tem esta autora complementado a sua intervenção poética com um trabalho de letrista de um género musical, o fado, que tem manifestos pontos de contacto com aquela tradição.

O desencanto de alguns dos poetas que melhor definem a atmosfera agónica da poesia portuguesa deste século, é levado às últimas consequências por Golgona Anghel, uma jovem autora romena, que instila muito da tradição niilista da moderna literatura do seu país, nos seus poemas portugueses, a que empresta um desarmante e feroz desassombro a que não estávamos habituados: «O remoto rei dos corvos,/ Edgar Alan Põe,/ deixa cair do seu bico,/ no centro de uma biblioteca,/ os restos de uma musa./ Cansados de tanta melancolia,/ os ratos montam à sua volta um circo.// ‘Annabel Lee’, ‘Annabel Lee’,/ guincham os bichos/ repartindo os ossos entre si.// Mostram os dentes,/ esticam-lhe a pele./ Sabem que o poema/ não tem outro precursor/ a não ser a fome,/ nem outro seguidor/ a não ser o crime.» O que chamaria Eduardo Lourenço, que, nos longínquos idos de 60, falou de uma «literatura desenvolta», a algumas das produções dos últimos anos, marcadas por uma ostensiva dessacralização de nomes, ou processos, aparentemente intocáveis da tradição literária? Nada parece estar ao abrigo do ímpeto demolidor, bem salutar às vezes, de alguns dos novos poetas. Veja-se, por exemplo, a paródia que um outro colaborador de Criatura, Miguel Martins, faz do jogo aliterativo em “o silêncio da ceira”: «uma ciranda circundando o som/ do cerne do que sou, serena e suja,/ e em que ressoa sempre a serrania,/ as sombras cintilantes de um soneto/ sentido, sublimado, sacro-santo,/ subindo as sebes deste sentimento.» Não faltaram, de resto, cultores da paródia na nossa poesia novecentista, de Mário Saa aos surrealistas, e de Alberto Pimenta a Adília Lopes. Nessa tradição se insere, de algum modo, Rui Laje, que, em Um arraial português, de 2011, parodia, em tom poético-politicamente certeiro, o mundo pimba, o triste kitsch das nossas festividades populares de verão: «O país dança? Pois dance agora/ ou cale-se para sempre/ e decida-se depressa/ enquanto a música não cessa// ou entre nós/ está tudo acabado.»

Nome dos mais em evidência entre os poetas mais jovens das últimas décadas, Diogo Vaz Pinto, ligado ao projecto Criatura, distingue-se pela entrega a uma discursividade de arrumada «desarrumação», em que, especialmente na sua segunda colectânea, Bastardo, de 2012, à narrativa do «caos» quotidiano percorrido em permanente «sensação de irrealidade», se junta a procura do que seria «a verdadeira alma/ dos nossos tempos», em confronto com uma nunca arredada degenerescência da «pátria cambaleante». A consciência de fim de época é, neste poeta afinal de tão amplo espectro cosmopolita nas suas leituras, um elemento que o mostra bem sensível ao apelo do inamovível pessimismo nacional, ao seu espírito de demissão: «E sou eu. É o meu grito. Só eu o oiço./ Na posse da noite que me resta,/ em plena posse dos meus poderes, tenho/ só a dizer que, obviamente, me demito.»

A consciência de fim que paira, por sua vez, num poema (“Estes lugares”, de A hora perdida, de 2003) de um seu camarada mais velho, Jorge Gomes Miranda, é de índole muito diversa; joga com a permanência dos lugares que, apesar das várias formas de destruição levadas a cabo pelo homem, lhe sobreviverão. À febre «delapidante» dos homens, condenados a auto-destruir-se, contrapõe-se a permanência da terra, de lugares que são emblema da sua beleza. A elegia radica, aqui, por um lado, no memento à condição efémera do homem e, por outro, no consolo que o poeta parece encontrar na pervivência da terra: «Estes lugares permanecerão/ muito tempo depois de o homem ter desaparecido:/ Castro Laboreiro, Serra da Arrábida,/ Monsaraz e as ilhas dos Açores./ Apesar da inclemência do vento,/ da devastação das máquinas/ e da delapidante indústria do turismo,/ estes lugares permanecerão/ no tempo.» Tão consequente no seu percurso discreto como Jorge Gomes Miranda é Rui Pires Cabral, ele que também passou pelo projecto editorial Averno, dirigido por Manuel de Freitas. Fiel à ideia de uma poesia partilhável que foi preocupação de uma geração que ambos, de algum modo, continuam, a geração dos anos 70 do século passado, Rui Pires Cabral tem num poema incluído no volume colectivo Ladrador, de 2012, “Meu amigo”, um dos melhores exemplos do seu gosto por uma expressão desenredada, que a própria forma estrófica escolhida, o dístico, ajuda a realçar: «Depois de tudo, no vazio/ da manhã inabitável,// ajuda-me a negar/ este remorso:// eu só queria uma canção/ que não morresse// e a hipótese de um poema/ que não fosse// o lugar onde me encontro/ uma vez mais,// sem desculpa, sem remédio,/ diante de mim mesmo.» Próximo destes poetas pelo desatavio da escrita, está Pedro Mexia, mas isolado em relação a eventuais grupos que possam ser definidos, autor de um dos livros mais marcantes da sua geração, Eliot e outras observações, 2003, em que veste a pele do flâneur passeando o seu desencanto pelas paisagens de uma Lisboa, que ele recupera, em termos de geografia humana, com um olhar ao mesmo tempo arguto e compadecido. É, por outro lado, um dos poetas que melhor ilustram no seu tempo a continuidade, entre nós, de uma tradição de poetas-críticos, a par de Freitas e Miranda. Nesta mesma linha de uma escrita límpida, que evita qualquer tipo de ênfase, se insere Inês Dias, partilhando, com os seus camaradas do que pode considerar-se uma segunda vaga da nova geração, a ideia de que não há «beleza» que nos salve, e de que, pelo contrário, são eles que querem salvar-se de uma «beleza», quiçá incómoda ou inútil. Não há consolo possível para a dor de viver, é o que parece sugerir um poeta mais velho, Carlos Bessa, que, como que em surdina, diz no termo de um seu poema precisamente intitulado “Vida”: «Gostava que não doesse tanto.» Nos poemas, de rara densidade penumbrosa, do seu último livro, Lugares, 3, de 2010, em que entra em diálogo com uma arte que vê como muito próxima da poesia, o cinema, procura, por sua vez, Maria Andresen uma iluminação que, ainda que «furtiva», seja portadora de sentido.

João Luís Barreto Guimarães e Luís Quintais, incluídos entre os poetas que representam a então “Nova poesia portuguesa” no número 12 da Relâmpago, em 2003, vejo-os, antes, pelo que há já de definido no seu percurso poético nos anos 90, integráveis junto de poetas revelados e plenamente afirmados nesse período, como, por exemplo, Fernando Pinto do Amaral, Ana Luísa Amaral e Manuel Gusmão, este último, aliás, um caso muito especial, por ser indissociável da geração de 70 a que cronologicamente pertence, para além, naturalmente, de Daniel Faria (1971-1999), cujo destino poético se cumpriu integralmente no decurso da década de 90. Neste balanço necessariamente provisório cabem, porém, dois poetas situados nos antípodas um do outro, Ana Paula Inácio, a qual acabou por não colaborar no supracitado número da revista por razões que são referidas na nota de apresentação, e Rui Cóias, que figurava entre os autores seleccionados. A agreste contenção da poesia de Ana Paula Inácio e o versilibrismo torrencial de Cóias, herdeiro do de Álvaro de Campos, ilustram perfeitamente a pluralidade de caminhos percorridos pela poesia portuguesa mais recente. Pluralidade que igualmente exemplificam outros nomes aqui citados e que ajudam a desenhar o mapa da nossa produção poética dos últimos anos. O caminho de José Ricardo Nunes, a quem se deve uma das primeiras abordagens críticas de poetas da sua geração, em 9 poetas para o século XXI, 2003, faz equivaler a densidade expressiva dos seus breves poemas à densa «matéria/ do sangue». Luís Manuel Gaspar, cujo nome aparece frequentemente associado, em colaboração plástica ou poética, ao projecto editorial que tem no centro a Averno, deixa à mostra a indissociabilidade do pintor e do poeta no modo como em vários dos seus textos joga com as tonalidades das cores e da luz e a difusa irrealidade das formas (cf. a estrofe inicial de “Vasa”, no volume colectivo Nós, os desconhecidos, de 2012: «Do teu vestido a velatura verde/ não coube neste cerco, ó bem-amada./ Era uma praia de asas de libélula/ fosca, em passadeiras luminosas,/ e o sino de salitre soletrado/ ao coração, por teu cego desvelo./ Livor de pequena vaga, sem dedos/ ao largo pra acercar o teu retrato»). O poema em Miguel-Manso, que não há muito deu a público uma selecção da sua poesia (Tojo – Poemas escolhidos, 2013), pode ser, como diz num dos seus textos, «um palco para gestos simples», e frequentemente o é, mas isso não o impede de, ao mesmo tempo, dele fazer um gesto de desespero contra «a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez/ da vida». António Carlos Cortez, com a sua última colectânea, Linha de fogo, de 2012, inscreve-se claramente numa das linhas mais em evidência da nossa lírica mais recente, a do confronto com a «cidade doente». Pela «trama subterrânea da cidade» se sente, por sua vez, atraída Margarida Ferra num poema de pendor micro-realista de Curso intensivo de jardinagem, de 2010: «Os prédios [...]/ parecem/ aguardar o transplante./ Mostram os canos/ descobertos: raízes/ que os ligam/, a trama subterrânea da cidade.» Finalmente, citaria Rosa Oliveira, cronologicamente mais perto dos poetas dos anos 80 do século passado, mas vindo, com o seu livro de estreia poética, Cinza, uma das mais sérias revelações dos últimos anos, muito ao encontro do amargo humor e da desenvoltura irónica dos seus pares mais novos, uns e outros dando expressão a um mal-estar que diz de inúmeros modos que «parece não haver alternativa à vida».

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