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Herberto Helder
por Manuel Alegre

 
 

UMA VELHA CUMPLICIDADE

 


Vi pela primeira vez a sua assinatura, que se manteria sempre igual, numa parede da Real República Palácio da Loucura, onde tinha escrito um poema que começava assim, se a memória não me atraiçoa: ”O senhor do monóculo/ tinha uma boca indecente/ e usava na botoeira/ uma rosa insolente”. Não me lembro do resto, mas havia quem soubesse o poema de cor. Passado tempo li na revista Búzio um poema intitulado “Fonte”. Era uma linguagem diferente. Líamos o poema em voz alta no quarto do Manuel Lousã Henriques, na Rua de Montarroio, e pressentíamos que algo de novo tinha começado com aqueles versos. Foi aí, nesse quarto cheio de livros, com uma secretária tosca e um divã, que conheci o Herberto Helder. Passámos a noite a ler poesia. Lembro-me do Herberto, com aquele seu sotaque madeirense, a ler Camilo Pessanha. Vários sonetos e, sobretudo, “Ao longe os barcos de flores”: Só, incessante, um som de flauta chora.

Na guerra colonial, quando nos deslocávamos de Luanda para o Norte, eu repetia muitas vezes esse verso, como uma forma de exorcismo. Os outros olhavam espantados para mim, às tantas já todos diziam: Só, incessante, um som de flauta chora.

Em 1957 ou 1958, Herberto Helder ficou pela primeira vez em minha casa, na Praceta Dias da Silva, n.º 1, em Coimbra. Talvez uma semana. Ainda ninguém sabia quem ele era, mas quando o apresentava eu dizia com convicção: “Poeta Herberto Helder”. As pessoas olhavam, surpreendidas.

Às tantas disse-me que o nome dele estava certo. Perguntei porquê, ele deu- -me uma explicação baseada em estudos de numerologia, se não estou em erro. E aconselhou-me a assinar com os meus dois primeiros nomes. Segundo as suas contas, também dava certo. Passei a assinar Manuel Alegre em vez de Manuel de Melo Duarte, como era conhecido na natação. Não sei se fiz bem.

Ele tinha chegado a Coimbra debilitado. Contava as suas deambulações pelas ruas de Lisboa, as noites dormidas nos bancos dos jardins, por vezes em albergues, os dias sem comer e a beber água das fontes. Contava com um certo deleite, como se falasse de uma espécie de iniciação. Tinha cortado com os estudos e o pai deixara de lhe enviar a mesada. Vinha um bocado em baixo, minha avó e minha mãe engraçaram com ele e obrigaram-no a comer. Passámos o tempo a falar de poesia e a ler poemas um ao outro. Como ele lembrou na dedicatória de A Morte Sem Mestre: “…para o meu querido amigo Manuel Alegre, para o poeta que me leu poemas seus e a quem li poemas meus, tudo cumplicidades…”.

Eu tinha 21 ou 22 anos, ele 27 ou 28. Rilke, Hölderlin, Camilo Pessanha, sempre. Mas também Gomes Leal. Gostava de ler “Nevrose Nocturna”:

– Bela, dizia eu, como um navio à vela,
para um país polar, por um silêncio amigo.
– Bela como uma estátua e gélida como ela
– Bela, dizia eu como um sepulcro antigo.

Bela! Dizia eu, ágil como um jaguar,
assim me inspire o Fado e Satanás me deixe!
Bela! Dizia eu, fria como o luar
sobre o dorso luzente e excepcional dum peixe…

Ou então a “Rainha de Kachmir”:

O vestido de noivado
Da rainha de kachmir
Era a diamantes bordado,
Como um luar num terrado!...
Parecia o céu estrelado,
Ou a visão de um faquir,
O vestido de noivado
Da rainha de kachmir…

Não sei quantas vezes lemos este poema, alternando as estrofes.

Uma noite, alguém trouxe um disco com Gérard Phillipe a dizer Rimbaud. Quando se chegou a “Une saison en enfer”, Herberto ficou numa grande excitação. Não conseguia estar quieto, cruzava e descruzava as pernas, levantava-se, voltava a sentar-se.

– Não se aguenta, disse.

Também líamos Cesariny e Alexandre O’Neill, sobretudo “O poema pouco original do medo”.

Assim passámos aqueles dias, a ler poemas um ao outro e às vezes a meias. Também discorríamos sobre poetas e arte poética. Depois ele voltou para Lisboa. Havia uma mulher, ainda me lembro do nome dela. Creio que estava um tanto obcecado.

– Tenho de ir.

E lá foi.

De quando em quando mandava uns postais. Combinámos alguns encontros em Lisboa, normalmente no Martinho do Rossio, que já não existe. Sempre para mostrarmos poemas um ao outro. Entretanto enviou-me O Amor em Visita, Contraponto, exemplar n.º 85. Quase dois anos depois, regressado da sua peregrinação pela Europa, recambiado pelo Consulado português de Paris, Herberto Helder apareceu em minha casa, nessa altura na Rua Correia Teles. Vinha diferente, mais endurecido, se assim se pode dizer, as rugas mais acentuadas. Dormia no meu quarto numa cama lá posta para ele. Trazia o manuscrito de A Colher na Boca. Uma amiga minha, luso-americana, a Helen, dactilografou os poemas. À noite, deitado de lado, ele escrevia. Eu ouvia a esferográfica a deslizar nas folhas grandes de papel quadriculado. Estava a acabar Os Passos em Volta. Creio que fui o primeiro a ler alguns daqueles contos. Voltei a ouvir a flauta dentro daquela prosa orgânica que era uma revolução na escrita. Na véspera de partir para a guerra, encontrei-o, por acaso, no Rossio. Quando lhe disse que ia para Angola, abanou a cabeça:

– Que grande chatice.

Contou-me de uns complicados amores em que andava envolvido. Perguntou-me: E agora, a escrita? Eu respondi-lhe fazendo o gesto de puxar atrás uma culatra imaginária.

Depois de eu ter voltado da guerra e do exílio, não nos vimos muitas vezes. Nem era preciso. Conversávamos ao telefone. A Olga (mudança radical na vida do Herberto) nem perguntava quem era, identificava-me logo, falava comigo uns minutos e depois ia chamá-lo. Trocávamos livros, combinávamos um almoço que foi sendo sempre adiado, às vezes eu mandava-lhe umas perdizes que ele apreciava. Como sempre falávamos de poesia. Mantivemos a amizade e a cumplicidade. As “afinidades e cumplicidades todas”, como ele escrevia nos livros que me enviava.

Conheci bem o Herberto. Sabia que não era santo nem monge. Nunca me interessou se ele dava ou não dava entrevistas, se se deixava ou não fotografar ou se recusava prémios. Eram opções pessoais. Não foi o seu modo de vida que fez dele um grande poeta. A poesia de Herberto Helder é importante por si mesma, pela energia cósmica da sua linguagem e pelo que nela há de revelação do sagrado. Por isso me irritou tanto o que alguns escreveram sobre a capa e o CD de A Morte sem Mestre. Como sou laico, gostei muito de voltar a ouvi-lo ler os seus poemas. Apesar da voz envelhecida, a flauta ainda lá estava. Não já a de Camilo Pessanha, mas a do Herberto, com o seu ritmo inconfundível.

Tive de reprimir as lágrimas em Barcarena. Não sei se a flauta corta o fogo, eu continuava e continuo a ouvi-la.

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