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Herberto Helder
por Eduardo Lourenço

 
 

H.H.: SOB O SIGNO DO FOGO




A arte íngreme que pratico escondido no sono
pratica-se em si mesma. A morte serve-a.

(Última Ciência)

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.

(A Colher na Boca)


Herberto é o não-Pessoa por excelência. Nasceu e lavrou um campo verbal semelhante ao húmus, ao inconsciente vital, subterrânea e perpétua água de que a relva e a floresta recebem o sangue luminoso de que se alimentam. Os seus poemas são puros flashes oníricos, como os de uma aurora, corpo incontrolável do mundo antes de se contemplar a si mesmo como cosmos. Esse cosmos nunca será como o de Dante ou de Proust, galáxia e alfabeto divinos concebidos para velar ou servir de espelho à nossa peregrinação nocturna ou aos nossos sonhos de deuses expulsos do Paraíso.

A sua poesia não narra, biblicamente, a glória inenarrável de Deus, mas o mistério do seu esplendor tenebroso. De que a Morte, buraco escuro para onde tudo converge, é o enigma supremo.

Consciente da sua queda, o poeta de A Colher na Boca não emigra para paraísos compensatórios. Percorre com uma atenção de pastor incendiário, épico e lírico, tudo o que no nosso jardim possa lembrar o mais antigo. E no meio do seu jardim o seu fruto mais celestial. Helder renovou e redesenhou com uma incandescência de incomparável fulgurância, os êxtases originais e sempre futuros do par humano. Em eco camoniano, revestiu-se do fulgor mítico do «puro amor» de incandescente imaginação. Amor e morte, com a sombra de Tristão no meio da mais evocada companhia mítica da odisseia erótica do Ocidente. Essa é a essência da paixão, de Safo a Stendhal. No mais famoso dos seus poemas revisita a eterna versão dessas núpcias convocando para ela a surpreendente e subversiva «musa» da Alegria.

À sua maneira revisitou e inventou a sua sagração da Primavera com a mulher no meio em vez da árvore enigmática e fatal da tentação. Quem não conhece a sua encantatória miragem da nova Eva futura, «jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue»?
Todavia este re-encontro do mundo, esta festa da imaginação em estado selvagem é descrita como uma consumpção digna dos ritos mais cruéis da memória humana lembrada de todas as Ifigénias redentoras do nosso mal sem cura:

Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo

[…]
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
[…]
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Nietzsche, ecoando o seu educador Schopenhauer, contrariando séculos de erotismo feliz, ousou imaginar que «o amor é a luta mortal dos sexos». É o pano de fundo da «cena primitiva», de que a poesia de Herberto Helder é o campo de batalha epicamente inexausto. Ou, então, clamorosamente exaltado. Não há na nossa poesia mais estranho e vívido combate intra-humano inextinguível que este que só na ópera (Clorinda e Tancredo) alcança estes cumes irremíveis. Ter feito deste impensável laço entre Morte e Alegria o coração da sua aventura poética é como atravessar o Inferno como Orfeu. Um Orfeu sem redenção.

Poesia de homem, o enigma que a suscita e mesmo que a precede só tem, como incontornável, a mais natural das fontes, a da mulher. Em Herberto esse enraizamento (melhor seria dizer fundamento) é rosto, é carne, é personagem com rosto de mulher:

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.

[…]
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo.
[…]
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Seria preciso evocar todo este poema – um de entre outros da oração místico-erótica mais incandescente de toda a nossa poesia enquanto determinada pela realidade finita-infinita do Outro como o diferente eterno de nós mesmos – para penetrar, mesmo temerariamente, neste drama das chamas, não da vida só mas do destino virtualmente imortal. Mesmo os mais belos hinos à beleza que não morre evaporam-se ao lado desta descida sem rede ao coração da vida ou daquilo em que o vivido a resume e em nome do qual convertemos a morte em luz perpétua imaginária:

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

Toda a paisagem poética de Herberto se inscreveu nesta vertigem erótica sublimada, com o eco do puro amor camoniano, mas agora num território desencantado, devastado, incendiado a que só a sua poesia confere o imprevisto e merecido milagre de restituir um sentido e uma incandescência outrora apenas acessível aos videntes e profetas e aos limpos do coração.

A sua poesia foi a tocha ardente que converteu um mundo desertado em paraíso furiosamente sonhado. E para sempre presente na sua fulgurância ausente.

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